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Barroso de Carvalho

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DADOS BIOGRÁFICOS DE GILBERTO BARROSO DE CARVALHO
Gilberto Barroso de Carvalho, viveu quase sempre em Miracema, onde nasceu em 23 de abril de 1892, tendo sido seus pais os professores Antonio Firmino de Carvalho e Rosa Barroso de Carvalho".
Foi casado com Otília Lisboa Carvalho, destacada filha de Pádua. Teve dois filhos: Lenine e Antonio.
Faleceu em 24 de fevereiro de 1926.
De sua curta existência, apenas três ou quatro anos foram passados fora de sua terra natal, isso quando residiu no sul de Minas e no sul do Espírito Santo, desempenhando funções oficiais como o de professor e Diretor Técnico do Ginásio de Alegre (ES) e de elevado funcionário público, em Passos (MG).
Barroso de Carvalho foi um eterno e romântico boêmio, que improvisava adoráveis versos satíricos e jocosos os quais, por muito tempo, permaneceram na memória dos seus contemporâneos.
De índole versátil como poeta, como orador, como jornalista e, especialmente, como pensador despretensioso, deixou Barroso de Carvalho renome famoso de versejador perfeito, de tribuno impressionante, de polemista destemido e de filósofo eclético.
Era um estilista por natureza, daí o primor corrente de toda a sua produção literária, quer no verso, quer na tribuna, quer nas colunas da imprensa; como orador em todos os acontecimentos cívicos, sociais e políticos nunca foi, em seu tempo, igualado. Era um virtuose da palavra que arrebatava os auditórios. Por falar quase sempre de improviso, seus discursos infelizmente se perderam no tempo e no espaço.
Ficou famosa, no entanto, a frase da oração, por ele proferida em saudação ao então Governador Feliciano Sodré, no auge da campanha separatista: "Miracema! Águia cativa que sofre o martírio dos que vivem sentindo asas nos ombros e grilhões nos pés".
A obra literária de Gilberto é algo que deve ser divulgada com justa ufania pelos miracemenses, não somente pelo encantamento lógico respectivo, como pela conceituação comunicante de sua amargurada filosofia em que flutua sempre um pensamento ilustre invocando o céu, a terra e o destino.
Escreveu em jornais dos Estados do Rio, Minas e Espírito Santo, principalmente nos semanários de sua cidade "O Município" e "Nova Fase".
Publicou em 1925 o seu admirável livro de versos "Pontas de Fogo", todo ele escrito em Miracema, e que foi o repositório de sonhos e realidades, aprimorados no crisol ideal de seu engenho.
Sobre sua obra, na ocasião, escreveu o político e literato Nogueira da Gama: "Dentre os que modernamente perpetram o chamado modernismo, nenhum excedeu ainda e, muito poucos, poderão ombrear-se com o bardo miracemense".
Na mesma época, o tradicional jornal "O Friburguense", em especializada seção de crítica literária, a seu respeito, publicou os seguintes conceitos: "A originalidade de Gilberto Barroso de Carvalho, não vai encontrar no Parnaso nacional senão louvores, muitos louvores. O seu livro é encantador... As suas rimas e seus alexandrinos são incomparáveis...".
A intelectualidade brasileira, pelas vozes de Ozório Duque Estrada, Agripino Grieco, Joio Ribeiro, Leôncio Correia e Povina Cavalcanti, não lhe regateou elogios.
Por ocasião de seu falecimento, com apenas 34 anos, Francisco Perlingeiro escreveu no jornal "O Agrário", então existente: "O Município perdeu com Gilberto uma das mais belas esperanças de nossa mocidade", e o Dr. Vicente Moliterno, acatado escritor gaúcho, então residente na cidade, assim se manifestou: "Gilberto era para esse povo como um sol que apagasse de repente e do qual todos sentiam os reflexos de seu talento e dos seus versos, que corriam, transpondo as fronteiras de Miracema...".
Grande batalhador da causa separatista, Gilberto Barroso de Carvalho não assistiu a realização de seu sonho, falecendo antes que Miracema fosse libertada.
(Dos escritos de Melchiades Cardoso adaptados por Marcus Faver).

MEIA DE SEDA - (Autobiografia)
Eu nasci de uma larva
em longo, branco e fino fio.
Fui casulo para envolver a larva
e fui depois um túmulo vazio
quando a larva, já feita borboleta
foi-se embora a beber o ardente sol do estio.
Julguei que ia morrer nos galhos da amoreira
que me vira nascer;
mas, um destino mau quis que eu vivesse
para humanos mistérios compreender.
Grosseiras mãos levaram-me a um tear,
depois de alguns processos químicos
para que eu pudesse a cor mudar.
Ainda fio fino branco e longo,
a cor mudei e fiz-me cor de rosa,
a cor das róseas rosas
dos jardins das baladas e romances.
Perguntava a mim mesmo: Onde me levam
com esse desvelo todo,
ora na dobadoura
ora ao calor de fornos e de máquinas?
Magoava-me a saudade
do galho da amoreira
e eu já temia, em silêncio,
compreender os homens.
compreender a vida
e invadir arcarcanos e os místeres
das soberbas misérias das mulheres.
De entre pentes metálicos e duros,
do rodar de milhares de engrenagens,
de estalidos estridentes.
Saí como aqui estou, em tais apuros,
que não mais era o longo e fino fio
que a larva dera ao mundo.
De beleza, era só esse artifício
com que o pudor oculta a carne lactescente
só por querer mostrá-la a toda a gente...
era eu enfim, a meia de seda
exposta aos olhos das mulheres
numa vitrine, entre plumas e rendas e bordados.
Fui por muitas cobiçada,
apesar de ser muito alto o meu preço,
pois muitas mãos bem pagas trabalharam
desde que fui colhida em minha seara
até a caixa em que ali fui bem guardada.
Fitaram-me com enlevo as operárias,
de meias rotas e sapatos gastos
antegozando o que eu seria
em suas magras e cansadas pernas;
costureirinhas magras e nervosas
que andam com a alma de rastros
pelas escadas dos ateliers,
beijavam-me com o olhar,
mordiam-me com o pensamento...
As hetairas velhas, impudentes,
iam em mim. Sorrindo, lucros certos,
porque com elas eu seria em breve,
cilada para os homens inexpertos.
A elegância que sofre e a dor esconde
atirava-me a vista displicente;
e tanto assim, que ao ver-me,
certa mulher sorriu amargamente.
Os homens não me viam;
por mim passavam sempre indiferentes
deixando o olhar pousados em outras meias
que passavam por eles, sorridentes.
Um dia, entrou na loja,
onde eu jazia à espera de uma dona,
trêfega criatura de saltitante andar,
tendo a frescura
de um lírio que desponta à luz do luar.
Cabelo curto, rosto carminado,
lábios queimados por ardente frases
a rescender a essência dos lilazes;
pupilas negras e buliçosas
como dois diabinhos saltadores
a dançar entre as pétalas de rosas
das pálpebras mimosas;
braços roliços, pálidos,
lembrando a palidez da pele dos ascetas,
ou as luzes de uma festa
à hora do amanhecer;
mãos esguias, sensuais e perfumadas
guarnecidas de garras sensualizadas,
o corpo airoso e firme
e os pequeninos pés irrequietos, nervosos,
diziam de uma Venus tropical
que se estorce em coréas delirantes
entre braços de sátiros galantes.
Era por fim, uma mulher bonita
como bonitas são muitas mulheres
que sabem descobrir e fazer realçar o que há nelas,
dos homens preferido e sensualmente apetecido.
"Aquelas cor de rosa da vitrine..."
Com um sorriso e uma cédula
foi a compra realizada.
Lá fomos, eu e a minha companheira,
a minha irmã, nascida como eu,
filha de lavra e que já foi casulo.
Em pequena gaveta perfumada
de um móvel do aposento
de minha possuidora,
fui guardada depois de contemplada,
dentro da gavetinha
fiquei ao pé de um livrinho de reza
e uma carta
que falava de amor em frases livres;
flores murchas, bilhetes,
cartõezinhos, um romance sensual,
um retrato de moço,
setas de amor brilhando em áurea aljava,
tudo lá dentro da gaveta estava.
À noite, fui a um cinema
vestindo a linda perna
da formosa criatura.
Era uma perna escultural,
feita de leite e arminho
no intervalo de um beijo;
o pequenino pé
talvez roubado a alguma imagem
de divindade lúbrica e pagã,
cantava a se encolher no sapatinho,
uma canção de amor e de desejo.
Havia em toda a perna, um frêmito nervoso
de quem anseia fortemente em vão
e dentro desse anseio
que sempre se avigora,
freme, delira, desespera e chora.
No escuro do salão,
Senti que sobre mim um peso incômodo
mais me colava ao pequenino pé;
depois, ao longo de meu corpo,
máscula mão encheu-me de cariícias,
carícias que não eram para mim
que aquela mão não via,
mas para a perna que eu vestia.
Naqueles dedos trêmulos e fortes
que suavemente comprimiam
a perna delicada,
vi, como fogos fátuos,
cintilarem fagulhas de luxúria
e o sorriso da carne que quer carne.
Naqueles dedos vi a negra pauta
em que estava gravada a sinfonia
da mais selvagem das concupiscências;
eram eles alfanges,
rompendo a trama que encarcera
todas as ânsias da animalidade;
e entre uma pele e outra pele,
entre um desejo e outro desejo,
eu estava impassível
a sentir dos dedos a pressão suave
e a sentir da perna os arrepios quentes.
Ao outro dia, um baile.
Era todo de rosa o sapatinho,
de rosa eram as ligas
que enlaçando os joelhos me prendiam.
Nessa noite, aqueles homens sérios
que passavam por mim indiferentes
quando eu pousava na vitrine,
olhavam-me com olhos de serpentes,
queimando-me,
torturando-me
parecendo revérberos de brasas
as irradiações constantes de seus olhos.
E a perna mais gentil, mais orgulhosa,
vibrava no meu seio cor de rosa.
A barulhenta orquestra
feita de ruídos secos, chocalhantes
e de harmonias desvairadas,
deu início à dança.
Nervos eletrizados,
seios arfantes,
numa explosão violenta,
enlaçaram...
apertando... fundindo...
enquanto a carne delirava
berrando com mais força
que as metálicas trompas de jazz-band.
Girei naquele vortilhão de corpos
e senti a vertigem dos abismos;
senti descerem até junto a mim
as fantasias loucas
a rebentar como vermelhos cravos
em um jardim de sonho de doente,
na cabecinha airosa
que ali me conduzira!
Na perna que eu cobria.
Sentia
a tragédia de uma alma emparedada
entre um véu branco
e um desejo animal.
Na outra perna,
envolta em negra calça,
ouvi guaiarem os desejos cálidos
em orgíaco sabath,
como se aquela perna fosse toda um corpo
de alma vermelha e nervos tensos
possuindo um ideal de amor,
todo luxúria, desvario e força.
Depois, foi na treva,
dentro de um florido carramanchão.
Ouvi juras de amor,
frases ardentes,
mais ardentes que as chamas do pecado;
senti abraços
entre os dois corpos que se constrigiam
como se fossem molas de aço;
ouvi rumores lúbricos de beijos
em lábios já beijados muitas vezes.
Vira eu murchar as flores do salão
ao calor das luzes e dos hálitos;
vira murchar as flores perfumadas
que a noite faz abrir
sobre os tetos verdes dos refúgios verdes
que escondem sempre amor às horas do crepúsculo
morrer como as outras flores,
vi, ao calor de um beijo,
entre a brutalidade de um abraço
e uma queda,
a flor de que fui haste,
a flor que é flor e véu,
e é tortura e é virtude
e é sangue e é carne
e é do céu e é da terra
e é divina e é animal.
Um estertor convulso,
um gemido sufocado,
um arrepio rápido
e uma lágrima branca a irrorar dos olhos,
transformaram então
a verde sala do carramanchão
em câmara mortuária
em que foi repousar a virgindade morta.
Muito ao alto,
a lua abriu o disco de malacacheta iluminada;
logo pelo espaço,
vozes soturnas, incompreendidas,
cantaram convulsivas
um hino ao lodo, aos vermes e às alcovas.
Daquele drama do carramanchão,
fui eu a testemunha silenciosa
na silenciosa solidão.
À hora do holocausto,
no momento da queda,
fui rasgada, bem vês,
junto ao joelho por um espinho da roseira
que engalanava aquele templo verde.
E ela trêmula, ao ver o indício
do seu mistério revelado.
Pobre meia, sofreste o que eu sofri!
A minha dor foi toda reflectir-se em ti!
E ele, beijando-me ofegante:
Hás de guardá-la, amor,
como lembrança
da vez primeira que um olhar trocamos
quando a quiseste e eu fiz com que a alcançasses.
Filha de larva,
nunca eu julgara que outras larvas cobriria
entre faustos e galas e delírios;
nunca eu pensara
que ainda havia de ser uma fagulha ardente
incendiadora dos sentidos
ou poderosa garra
que levasse à primeira e irremediável queda
um corpo e uma vontade.
E compreendi toda a verdade!
A minha cor de rosa
e o entrançado de preço do meu corpo,
ansiados pela vaidade,
foram naquela noite
o preço vil daquela virgindade!
Como são néscios todos esses homens
que julgam que a mulher ainda é mistério
indecifrável!
Hoje estou velha, rota e desbotada.
Ela anda por aí,
fresca com um sorriso de criança
e sempre perfumanda como um lírio...
Este rasgão aqui, junto ao joelho
é a única lembrança que ela guarda
de um prazer e um martírio.
Minha vida de seu termo se aproxima
e para o nada
uma verdade levarei comigo:
Mulher, larva do mal, abelha da ventura,
recife de coral em mar todo bonança,
nimbos em manhã primaveril,
estrela guia em noite de tormenta,
pitonisa da glória, sacrário de ternura,
água estofa de lago tenebroso,
é apenas granito que no ar se dissolve,
é algébrica equação que se resolve
quando cobiça e alcança
um ornato de preço como eu fui.

A BORDADEIRA
Todas as tardes, Lúcia, a flor da vila,
Vinha bordar sentada no jardim;
Tinha sempre entre as mãos, meiga e tranqüila,
Agulha, bastidor, linha e cetim.
Lúcia foi noiva. Numa tarde, vi-a
Em sua cadeirinha habitual,
Bordando, embevecida de alegria,
Uma pequena peça do enxoval.
Casou-se Lúcia; mas, lá está no posto,
Triste, abatida, em sua cadeirinha,
E borda ainda com apuro e gosto
O rosado cetim de uma touqinha.

A MOSCA
Andou pousando em tudo aquela mosca:
na água do pântano esverdeada,
numa pústula toda escalavrada,
numa fossa de fezes,
no cadáver de um sapo,
de um negro morto na pupila fosca
e nas nódoas de sangue de um farrapo.
Em tudo mergulhou a sequiosa tromba,
e de tudo o que humano olfato zomba,
sugou néctar delicioso
ao seu misterioso paladar de mosca.
Depois foi brincar feliz e farta
sobre o corpo de um bela que dormia.
Bebeu-lhe o perfume dos cabelos,
a humidade dos cílios e dos lábios
e o ácido exsudar das axilas.
Voou, voou, mais feliz e mais farta
para ir morrer numa teia de aranha
que num vão de telhado se entrançava.
Nos últimos instantes,
a pobre mosca teve ainda a lembrança
da suculenta refeição daquele dia.
Lembrou a água do pântano,
a ferida, a fossa de fezes,
o cadáver do sapo,
as mil nódoas de sangue do farrapo,
as purulentas da pupila fosca,
da jovem, os cabelos perfumados,
a humidade dos cílios e dos lábios
e o ácido exsudar das axilas.
A pobre mosca
foi morrendo, morrendo,
sentindo a torturá-la um íntimo desgosto,
porque, sentiu que em tudo o que provara,
sempre achara
o mesmo, o eterno e invariável gosto!

A NOIVA
Na manhã de um domingo, um príncipe formoso
Seu castelo deixou; foi caçar na floresta
E à sombra adormeceu de um plátano frondoso
Em êxtase ouvindo a passarada em festa.
Venenoso animal, um áspide talvez,
Cravou-lhe na epiderme os dentes de escalpelo,
O príncipe desperta e sente a lividez
Da morte em suas mãos. Volta ao castelo.
Toda a corte se agita e o príncipe enlouquece
Quando um médico diz: Há de ser tudo em vão!
O velho rei tresvaira e nas asas da prece
A velha mãe eleva aos céus o coração.
Eis que uma voz se alteia: O Rei, no contraforte
Da torre que o levante encara sobranceira,
Vive quem poderá fazer recuar a morte
Do leito de teu filho: é Zulma a feiticeira.
A bruxa foi trazida; ao ver o moço inerte,
Tomou-lhe as mãos e a fronte, os olhos lhe entreabriu
Depois, lançando em torno o olhar frio e solerte
Fitando o Rei e a corte incrédula sorriu.
Mas, foi dizendo ao Rei: para salvar o doente
Eu quero que me dês os teus olhos baços,
De sua noiva quero a trança refulgente,
De sua mãe careço os engelhados braços.
De toda a gente,àã vista, o Rei os olhos tira
Deixando em sangue negro as órbitas sem fundo;
De um guarda, o alfange corta os braços que lhe atira
A desvairada mãe do moço moribundo.
A noiva grita então: o meu cabelo loiro
Que aos poetas, ao luar, dá tanta inspiração?
Meu fúlgido diadema? O meu maior tesouro?
Sacrificá-lo assim? Oh! Não! Mil vezes não!
O príncipe morreu. A feiticeira então
Todos os três ajuntando, em gesto heróico e belo
Sobre eles estendendo a vara de condão,
De vez os transformou. No parque do castelo.
Do pai, fez uma fonte a murmurar tremente;
Da mãe, ave de luz que logo ao céu voou;
A noiva, transformou em lama putrescente
Que apenas nado o sol, à luz do sol secou.

A VOZ DOS TELHADOS
Na paresia da noite,
de uma noite sem lua,
perambulando, a sós, de rua em rua,
ouvi a fala misteriosa dos telhados;
- Há por baixo de nós,
- toda a história da vida. Somos túmulo e docel
onde a alma humana dentro em nós escondida,
dorme esquecendo o mundo
ou ressumbrando fel.
Sentinelas do sono, fitando a altura etérea,
guardamos silenciosos
os segredos do amor que se desfaz em gozos
e os rugidos famintos da miséria.
Ocultamos da luz
os leitos da inocência e os leitos do pecado,
o sono da Fortuna e as vigílias da Fome,
o beijo do adultério e o amor legalizado,
almas vertendo sangue, outras vertendo pus,
orgias de bordel e pompas de noivado!
Como aqui dentro são diversos
esses que andam lá por fora,
alegremente,
hipocritamente,
falando em Deus a toda a hora,
cultuando satã sinceramente.
Quem nos vê e nos entende
logo compreende
toda essa hist6ria ainda incompreendida.
Calaram-se os telhados.
A terra adormecida
continuava a girar
entre o mistério da Morte e o segredo da Vida.
As árvores da praça, como que a rezar
tinham perfis hieráticos de monjas,
e a volúpia da noite esparzia pelo ar
o sútil e sensual perfume das esponjas.

ALEGRIA
Só é alegre no mundo,
O homem que não tem peias
Em sentir prazer profundo
Com as desgraças alheias.

ALMA BOÊMIA
Só quando a noite vai já por mais de metade
é que essa alma conhece o que é ter liberdade.
No silêncio da noite, a rua adormecida
Tem outro encanto, tem outra vida
Mais fortes que esses que nos dá
A luz crua do sol.
Em cada canto escuro, em cada sombra triste,
Há uma cadeia nova, há uma emoção secreta,
Há frêmitos de leitos,
Há sonhos liriais de lábios satisfeitos,
Há desejos sutis que só a ilusão completa.
O silêncio da noite convida a gente a meditar.
E como é bom, na treva e no silêncio
A alma inteira deixar
Estranhos mundos pervagarl
Dentro da noite, tudo é bom, perfeito,
Porque há silêncio; a alma das cousas vibra.
O próprio amor descança no frescor de um leito
E a Natureza as almas equilibra.
Tudo dorme. As estrelas cintilam;
É mais claro e mais vivo o som do sino
Marcando as horas que a morrer vacilam.
Vagando então sem rumo e sem cuidados
A alma boêmia compreende a noite
E zomba então feliz do seu destino.

BOÊMIA
Há uma essência divina
no olhar dessa.mulher
que bebe, canta, ri, aspira cocaína
e ama quando quer.
Os seus lábios vermelhos
que milhares de bocas têm beijado,
são opacos espelhos
que refletem o amor legalizado,
que em noites de alegria
foi neles ensaiado.
A sua face rubra, em plena orgia,
tem às vezes o cheiro nauseante
de um fruto que apodrece;
mas, de outras, tem o aroma estonteante
de virginal alcova em que adormece
o amor que anseia alguém que está distante.
Sua voz é sempre melodia
quando é noite fechada
e é jazz-band de deboche ao meio dia,
quando pousa cansada
das horas de sensual hipocrisia.
Se às vezes chora,
é que a miséria sórdida a consome;
mas, logo após, aos lábios seus aflora
um riso que trucida e lhe disfarça a fome.
Para quem traz na vida o coração partido,
essa mulher da lama, histérica, bizarra,
é o narcótico suave, apetecido,
que faz ouvir da morte a dúlcida fanfarra.
No romance da existência
é uma página vibrante
um sorriso dos seus;
há nele alto desdém pela iludo perdida,
há o túmulo dos gozos de um Instante,
e um desafio a Deus.
Ela é a imagem da morte. O seu olhar fascina,
quando por noite a.fora,
antevendo os clarões da última aurora,
canta, bebe, sorri e aspira cocaína.

CANÇÃO NOTURNA
Hora de frio, hora de bruma..
Anda a lua lá em cima envolta em véu de espuma.
As luzes tremem. Há silêncio em tudo
E o céu parece um brônzeo e negro escudo
Onde brilham com medo, em plena treva,
As tauxias de prata das estrelas.
Um sussurro longínquo e que aos poucos se eleva
Vem no hálito do frio pelas ruas e vielas.
Quebrando a paz da noite, uma canção
Baila dentro dos nervos de um violão.
E no ar parado e frio e no âmbito da noite,
Parece que uma dor anda buscando açoite.
A voz trêmula chora; titubeia o violão.
E vai-se confessando à toa um coração.
A lua muito branca a rolar lá no além
Inspira o trovador que sofre por alguém.

CIGANA
Vive errante, sem lar, sem pouso firme,
Esta cigana que me estende a mão,
Para ler meu futuro e prevenir-me
Das perfídias da sorte e da ilusão.
De tudo quanto esta tricana afirme
Visando à moeda no auge da ambição,
Hei de zombar, porém, sem eximir-me
de ouvir-lhe a promissora predição.
Vendo ao longe o Futuro, fala em viagens,
Cartas de amor, fortuna, e de olhar rudo
Em realidade vê minhas miragens.
Coração de mulher, que tanto engana,
É assim também, pois prometendo tudo,
Vive errante a mentir como a cigana.

COFRE FORTE
Esse monstro impassível, impenetrável, bronco,
que a força bruta mais feroz resiste,
é um férreo tronco
que guarda em seu bojo frio
um tesouro
que mão avara, em desvario,
juntou durante uma existência inteira
tendo por todo mundo acérrimo desdouro.
Depois, ao vê-lo de ouro referto, fechou-o
e foi dormir em sítio que ninguém conhece,
no universo das larvas subterrâneas
onde fermentam decomposições.
Quem pode agora abri-lo?
Talvez ninguém. . . Ambições expontâneas
surgem ao vê-lo hirto e tranqüilo.
Que venham malhos, forjas, alavancas,
braços hercúleos feitos de aço,
puas de fogo, serras comburentes,
e tudo recuará em trêmulo cansaço
sem desvendar do cofre as entranhas luzentes!
Para abri-lo há um segredo
que o onzenário que o fechou,
levou perversamente lá para o degredo
em que por sempre se ocultou.
E três números só e só três voltas
no círculo de níquel e um estilete,
pequenino ariete
que dedos débeis podem manejar,
bastam para deixar as portas soltas
desse monstro de ferro frio e rudo
que enfrenta o aço e a força e zomba enfim de tudo.
Sem conhecer esse mistério de números e voltas,
diante do cofre as ambições mais francas
morrerão sem poder arrebentar-lhe as trancas.
Vai por onde quiseres,
e assim verás o coração de todas as mulheres
guardando asiáticos tesouros.
E cada um possue o seu segredo
para deixar-se abrir.
Bastante é conhecer as emoções do enredo
desse segredo,
para abri-lo,
possui-lo, .
todo amor e ternura
com arroubos de mística ventura.
Sem que se tenha a chave do mistério,
Resiste sempre a luta, o coração ambicionado.
Mesmo cedendo ao fim de dura guerra
Rolando em pranto que o tortura e enluta,
Há de ser para sempre um coração fechado.

CONDENADO
Do gradil através o condenado espia;
Vibra em festa a cidade e o prazer reverbera
Nos prismas da Ilusão, do Amor e da Harmonia
Tal qual a Natureza ao vir da Primavera.
A turbamulta passa em frente ã grade.Austera
A justiça lá fora o cárcere vigia.
E enquanto pelo mundo a vida se acelera
O pobre réu se engolfa em mórbida atomia
A tudo lança um olhar de sonhador demente,
Sentindo o coração sangrando surdamente
Entre a turba que exulta e seu sofrer medonho.
Artista! É também este o teu destino. É crime.
Anelares na vida a perfeição sublime
E o Mundo te condena ao cárcere de teu Sonho.

CONFIDÊNCIA
Uma taça cristalina
Onde o champaghne espumeja,
Murmura sempre em surdina
Da vida um que quer que seja.

DESPERTAR
Veio a moça do baile, a arder na chama
Dos violentos desejos comburentes
E dorme agora em perfumada cama
Tendo no rosto a palidez dos doentes.
Há nos seus lábios, rictus de tortura;
Na cabeleira negra em ondas feita
Esconde beijos da última aventura
E imprecações de carne insatisfeita.
Agora sonha e nesse sonho alegre
Que seu cansado espírito abastarda,
Talvez de seu jardim se desintegre
A flor de amor que espetalar-se aguarda.
Entre os fofos do leito rescendente,
Vai despertar em trêmulos coleios,
Contendo a custo o coração fremente,
Sentindo a dor dos machucados seios.

ESTUDO EM VERMELHO
Longos, delgados, anêmicos, lascivos,
Dobram-se em ângulo agudo braços brancos
Sobre os troncos negros que lá vão rolando
Na volúpia das luzes e das ânsias.
É a hora da dança. Essências e gambiarras.
Pulular de desejos, inéditos abalos.
Há um trisma vermelho da harmonia.
Na algazarra nevrálgica dos metais.
Há vibrações elétricas
Em cada gota de coral que a seda esconde
Nos vértices dos cones de alabastro e sangue
Que gemem ao compasso dos atritos.
Dialogam as mãos. Colubrejantes passos.
Canções vindas dos olhos. Harpejos nos contatos,
Arrepios de frio nas espinhas curvas,
Ardências de vulcão nos nervos todos
E a dinamização potente das idéias
Dentro dos caos do instinto disfarçado.
Corre o tempo como um rio de luz pela treva da vida
Há florações bizarras de esperanças
E funerais monásticos de beijos;
Os braços brancos quais serpentes brancas.
Traçam ainda sobre os troncos negros
Gestos que sonham repetir mais fortes
À hora do Cumprir que a louca Natureza
Faz marcar no relógio de uma célula.
O tempo passa. E vem depois,
Combates dois a dois!
Estalidos violentos, dilacerações brutais,
Rápidas agonias, tédios de vitória!...
Andam depois a rir os canos dos esgotos
Vendo passar na água escura que corre
Flocos vermelhos de sabão
- Indícios vivos de um combate atróz.
O rio de luz é agora rio de treva.
Repousam as serpentes brancas.
Há um choro débil, sufocado.
Penumbra. Zumbidos, nesse baile
Em que dançam náuseas e arrependimentos.
O choro débil continua. Olhos profundos.
Cabelos soltos e revoltos. Delíquio.
No ar parado e morno, há murmúrios mortos
E bocejos de tédio e displiscências más.
Morreram as violetas, os lírios e as verbenas.
Todo o ambiente rescende a química e a resinas.
Alvorada da Vida! Eterno prólogo da Morte!

FIM DE HISTÓRIA
...pois foi sempre assim que a conheci
e há-de ser sempre assim...
Mãos que não vibram, lábios que não blasfemam,
Pés que calçam sem rumor os desejos mais fortes
Tem nos doces sorrisos toda a amargura dalma
E no arminho do olhar a flama de um petardo.
Na penumbra da vida recorda o Amor.
A Saudade. O Passado. A Desventura. A Resignação
É uma mulher que amou e sofre ainda;
Espuma que foi onda, fumo que foi estrela...
Vê-la é ver um parque abandonado
Onde em um lago estanque
Alveja a última pluma do último cisne.
Árvores desfeitas. Esqueléticas sombras.
Evocações, Ruínas, Beleza do silêncio.
Aos seus ouvidos canta continuamente
Uma voz em triângulo.
Ressaibo de ambrosia; feito em fel
Amplexos de luz, hoje de ofídio...
No relâmpago de um olhar a visão do infinito
E hoje o olhar fixo e nada vê que a terra,
Anda sempre a sonhar
Com um pedaço de luz no engaste de um crepúsculo.
O triângulo eterno. A Vingança. O Temor.
Mas, pela estrada azul de seu deslumbramento
Vai seguindo e sofrendo o seu delírio azul.

FINADOS
Dia de Finados. Há saudade e luto
Sobre as tumbas frias e silenciosas.
Muita dor já morta, muito pranto enxuto,
Hão de ressurgir nesse dorido luto
Que a saudade tece em pétalas de rosas.
Tem o campo santo aspecto novo e lindo!
Toda a ossada branca que ali dorme oculta,
Como que desperta de um torpor, sentindo
Toda a essência amarga que já vai fugindo,
de um pesar sem alvo, de uma dor inculta.
Quanto pranto falso e quanta prece pura!
Flores e grinaldas, tremulantes velas,
Enfeitando a Morte na morada escura
Onde sob a terra de um sepultura
Há só trapos negros, cruzes amarelas!
Lá na torre branca de igrejinha branca,
Hoje dobra o sino compassadamente,
Modulando o bronze a dor que não se estanca
Num gemido fundo que a saudade arranca
De quem tem no peito um coração que sente.
Hoje a rua é triste, toda a gente é triste;
Pobre de quem sofre e de quem está doentel
Lá na voz do sino uma canção existe
A contar que a morte está de gládio em riste,
Pronto a espedaçar o coração da gente.
Dia de finados, de melancolia,
Em que o próprio vento tem soturna a voz...
E esse bronze rude em mística harmonia,
Diz-nos que esperemos, que há de vir um dia,
Em que os outros, tristes, ficarão por nós.

FRÍGIDA LUNA
Se em ti não mais tumultua
Das esferas a harmonia,
Flor éterea, branca lua,
Por que assim brilhas tão fria?
Por que, se a vida não medra
Nessa tualma de prata,
Vens tu, auréola de pedra
Dar vida ao que a noite mata?
Muitas almas envenenas
Com os raios de tua luz;
Contar, ninguém pode, as penas
Que o teu veneno produz!
Lâmpada algente do espaço,
Povoas almas de sonhos,
Quando tens no teu regaço
Silêncios tredos, medonhos.
Quando, envolta em claridade,
Rolas pela azul devesa,
Lágrima és tu, de Saudade,
Dentro do véu da Tristeza.
Deixa essa luz que roubaste,
Essa luz que não é tua;
Quebra do azul teu engaste,
Não voltes mais fria lua!

INCÓGNITA
Foi de olhar frio, indiferente a tudo,
Num gesto vago, flácido, indolente,
Que ela me disse: - É o meu melhor estudo
Saber o que contém a alma da gente.
Será luz, será treva, Bem ou Mal
Que dentro em nós existe, esplende e vibra?
Divina essência? Instinto de animal
Que meu paul do mundo se equilibra?
E sempre o entendimento meu se cansa
Sem conseguir uma alma compreender;
O meu olhar desmaia e não alcança
Tudo que há no teu Ser e no meu Ser!...
Em resposta eu lhe disse: - Pensa em calma;
Meditação o espírito reclama.
Inverte no princípio as letras de Alma
E a solução terás; acharás Lama!...

JARDIM NOTURNO
Este jardim à noite, quando a lua
boia perdida pelo azul do espaço,
branca como um flor feita de neve,
tem a tristeza que não se descreve
de quem numa só ânsia se extenua
e morre do cansaço
em que tomba quem sofre sem ter pausa.
Dessa tristeza, só a lua é a causa...
As árvores, hieráticas, taciturnas,
têm o aspecto solene
de fastasmas que buscam antros, furnas,
em passo vagaroso.
O tanque refletindo a lua pálida,
parece estar abrindo a boca esquálida
para dizer um poema de Verlaine.
E a lua vai traçando a curva rota
no côncavo do azul limpo de-estrelas.
As sombras mudam, caminhando, pelas
estreitas alamedas silenciosas.
Há uma canção no espaço, uma canção ignota,
feita de luar e de hálitos de rosas.
Vem de longe, do céu, do mar, quem há de
saber de onde é que parte essa canção remota?
Esse jardim noturno, é a alma da gente
Quando sente o clarão da lua da Saudade...

LlBERDADE
Dizem que o homem só ama a Liberdade;
Que em contínuas revoltas, férreas lutas,
Desde os primórdios da primeira idade,
Por ser livre enfrentou mil forças brutas.
No entanto, já foi livre como os ventos,
Como as ondas de um mar sem longas praias,
Quando vieram do nada os seus alentos
Para correr, da Vida as lindas raias.
Mas, depois, no fastígio do poder,
Cansado de ser livre e ser senhor,
Sentiu sualma triste compreender
Que a Vida sem grilhões é sem dulçor.
Inventou a Faml1ia, a Sociedade,
Um Deus criador, eterno e onipotente,
A Honra, o Pundonor, a Honestidade,
E hoje escravo de tudo, está contente.

MADONA DAS ROSAS
Viste a roseira e as flores milagrosas
Que eclodiram depois de tantos anos,
Quando os velhos e tristes franciscanos
Não esperavam mais as lindas rosas?
Tronco senil, mirrado, hastes nodosas,
A tristeza letal dos desenganos,
Santuário em que o céu guardava arcanos
Nas nervuras das folhas cetinosas...
Milagre? Sim! Em tudo o Amor imperal
Pois refloriu essa árvore bendita
Porque sentiu a eterna primavera
Na luz do olhar de uma mulher bonita.
De um feito igual, eu sei quem se blasona!
É um quase morto e frio coração
Que ao pelar do teus olhos de Madon
Refloresce da vida na ilusão.

MENTIRA AZUL
Minha amiga,
Recebi tua carta e em seus dizeres
Senti que a alma tens presa a um mito antigo;
Que em troca dos reais e bons prazeres
Queres o céu, casa de um Deus amigo.
Pobre de ti! Há pois para escolheres
Os dois caminhos que traçar consigo:
Um, em que a Luz deslumbra os vivos seres,
Outro em que a treva marchará contigo.
O da Luz, é o da Terra alegre e clara,
Da Vida que vivemos, desta seara
Que em nossas almas lavra o Amor taful.
O outro é o do Céu - uma espia nada altura
Que à alma entristece e a vida desfigura
E é nada mais que uma mentira azul.

PERGUNTA
Usas meias cor da pele
E a pele do rosto pintas;
Desejo oculto te impele
A esse contraste de tintas.
Tua beleza realças
Com esse artifício moderno
E a poder de cores falsas
És do desejo um inferno.
Se é teu intento agradar,
Venho perguntar-te aqui:
Com que tintas vais pintar
O que mais agrada em ti?

O QUE ELAS VIRAM
Entraram ambas pela mesma porta
e ambas de joelhos junto ao mesmo altar
foram ficar.
Uma, era flor já quase fria e morta;
outra era rosa entrefechada ainda,
mas, pura e linda.
Ambas de joelhos a fitar o Cristo,
tinham no olhar contrito e vago, um misto
de crença e mágoas.
Oravam ambas; a viçosa flor
pedia a Deus, o grande, o imenso amor
que faz da morte vida e faz florir as fráguas.
Via no Cristo, a fraca luz dos círios,
a promessa do céu que a meiga cruz encerra.
A outra, fanada flor que nunca deu perfume,
relembrava em silêncio os mil martírios
de sualma com a carne, em lancinate guerra.
Orava. A cruz fintando com ciúme,
via no Cristo, a imagem fugidia
que o seu desejo mau de todo o dia
jamais lograra conquistar na terra...

O QUE NÃO SABES
Toda a tua vida é a história de um desejo
De uma ânsia sempre oculta
Que, se aos olhos exsurge num adejo,
Logo o lábio a sufoca e o coração sepulta.
Toda Vida é um anseio e todo Coração
É um túmulo que tem abertas sempre as portas!
Dele foge a toda a hora a alma de uma ilusão
E estão sempre a buscá-lo as esperanças mortas.
Pergunta ao teu silêncio, se outra cousa
Há em tua vida mais do que um desejo,
Uma esperança vi num dolorido harpejo,
Que a tualma que sofre traduzir não ousa...
Dentro da noite, dentro da vigília,
Todo o teu pensamento que trabalha
E na treva exterior esplende e brilha
Ou tem dobras sinistras de mortalha,
Luta contigo mesmo, desfalece, tomba,
Por não poder romper esse sinistro manto
Que o destino que ri, chasquea, zomba,
Estendeu entre ti e o Por Quê anseias tanto.
Se em teu íntimo vibra uma emoção intensa
E vês com a alma o que olhar não vê,
Quando sonhas na vida uma ventura imensa
Não choraste sempre sem saber por que?
Do teu Desejo vive a tua Vida;
Quando ele for perdido ela estará perdida.

RABO DE CÃO
Pelas ruas, pelas vielas, pelas estradas,
Andam os cães de caudas levantadas.
Soturno ponto de interrogação
É um rabo de cão.
Diante do homem alegre, diante do homem triste.
Anda continuamente
Esse sinal que em vaguear insiste.
Rabo de cão. Símbolo perfeito
Do mundo misterioso, indiferente,
Que tudo e a todos dá problemas tenebrosos
Cheios de negras interrogações.
Homem, Mulher, Vida, Morte,
Almas e corações,
São problemas traçados
No quadro negro da sorte
Sem número que os farte em seus enunciados.
E quantas soluções todos eles encerram?
Enígmas, que cançam, polinônios que aterram.
Em tudo e para todos há uma interrogação
Fria e mordente,
tal qual esse sinal inconsciente
- Rabo de cão...

RISUM TENEATIS
No mórbido sorriso que flutua
À flor dos lábios teus, constantemente,
Nesse sorriso irônico, inclemente,
Que faz mais linda a linda face tua.
Nesse sorriso divinal, tressua
Orgulho mais pueril que consciente,
Chaga viva em tualma impenitente
Que um tormentoso anseio te extenua.
Não te rias assim, gentil criança;
Nem sempre o que se espera é o que se alcança
E às vezes os rosas fazem-se abrolhos.
Podes te rir, mas, ri com mais cuidado.
Porque esse riso em pranto transformado
Bem pode um dia macerar teus olhos.

SABIÁ
Duas vezes me vem todos os dias.
Pousar num velho jaracatiá,
Um vagabundo e arisco sabiá
Cantando as mais variadas melodias.
Não é que o passarinho entendeu já,
Do Mundo e do Destino as Ironias?!
Por isso, vem dizer cousas sombrias
Que muito pouca gente entenderá.
Entre a pompa auroreal que explende e brilha,
Canta um hino a Esperança e logo trilha
O azul caminho, donairoso e ufano.
Mas, quando a tarde morre e a luz se escoa.
Volta á ramada triste e triste entoa,
A funeral canção do Desengano.

SEIS DE COPAS
Hora da meia-noite. Na taverna
Há risos, fumo no ar,
Rostos macilentos, rostos congestos,
Olhos com profundezas de cisterna
Talvez o inferno perscrutar;
Tilintar de copos e garrafas,
Cartas do jogo, dedos prestos,
Mulheres mais esguias que girafas,
Outras rotundas, sórdidas, suarentas.
É a hora em que a desgraça se diverte
E esquece o dia morto
Entre corpos cansados e almas lamacentas
E o gargalhar solerte
De quem chega cansado a um desejado porto.
Luz baça, hálitos quentes,
Frases soltas à toa, histórias impudentes.
Junto à mesa de jogo, há uma carta caída
É um seis copas. Cópia fiel
De um pedaço de vida
Que ali dentro destila
Seus resíduos de fel.
Seis de copas! Pedaço da avenida vermelha
Feita de corações que sofrem pelo mundo
Num silêncio profundo
Que ao silêncio das tumbas assemelha;
Silêncio em que ressumbra a podridão,
Em que há vermes soturnos, convulsivos.
A corroer o chão
E a devorar os elementos vivos.
Entre as alas vermelhas e doridas.
Há a brancura ideal de imaculadas vidas.
Seis de copas! Carta caída...
Duas alas vermelhas que lá vão correndo,
Feitas de corações que vão morrendo
Dentro da vida.

SILÊNCIO!
Silêncio, coração! Sofre em silêncio
E com um riso fingido o pranto esmaga.
O amor que te maltrata, enfrenta-o, vence-o
Como a areia da praia vence a vaga.
Que uma lágrima só, jamais ascenda
De ti a uns olhos frios, dolorosos,
Porque a dor que a outros olhos se desvenda
Só risos traz aos que são mais ditosos.
Sofre sempre em silêncio. Muito embora
Em sonhos guardes sempre uma esperança,
Espera um rude golpe a qualquer hora
Que o mau fado que tens nunca descansa.
Não contes a ninguém o quanto anseias,
Porque o prazer à Dor nunca socorre.
Se, de infeliz amor prendem-te as teiasCom esse amor em silêncio sofre e morre!

SÍMBOLOS
Era uma vez, terno lírio
Em um charco a vicejar;
Tinha a brancura de um círio
E a tristeza do luar.
Sozinho, branco, a sonhar,
De tanto negror em meio,
Bebia as brisas do mar
Fitava o céu com anseio.
Tinha no sol, um martírio,
Na luz da lua, um pesar
Olhava o charco, em delírio,
Na sombra crepuscular.
Uma abelha sem receio
Foi-lhe o cálix oscular;
A flor em pérfido enleio
Deu-lhe veneno a sugar.
Vingança! A abelha enlouquece
Mas, voa e alcança o luar,
Enquanto o lírio fenece
Longe do céu e do mar!

SINISTRO OLHAR
Aquele estranho olhar tem um mistério
Seja pureza ou seja de impiedade;
Lembra um gesto fatal, triste, funéreo,
Que é traçado entre a treva e a claridade.
Traz às vezes palor almo e sidéreo
Feito de afeto ou feito de piedade;
Depois, da carne sente o duro império
E fulge pleno de sensualidade.
Se outro olhar fita, uma paixão estuga;
Se um altar contempla, faz lembrar em fuga
Dois scherzzos de lánguida sonata.
O brilho desse olhar quase adormenta
E é um misto de luar e de tormenta
Que fere, beija, acaricia e mata.

SÍNTESE
Agoniza no catre a velha meretriz
Que anseia, geme e chora em soturno abandono.
Lá fora o mundo ri, o mundo onde a infeliz
A desgraça encontrou nos ouropéis de um trono.
Conhece da alma humana os pávidos segredos:
- As carícias da besta e o amor espiritual,
Em tragédias sem fim de tétricos enredos,
Nos faustos dos salões, nos leitos do hospital.
No entanto, foi feliz no rosicler da vida;
De virgem teve o manto e o velo do pudor;
Era toda uma aurora esplêndida e florida
A despontar de um sonho entre canções de amor.
Agora na agonia, é o espelho do mundo
Que com ela apodrece; é a síntese final
Da eterna sociedade, esse paúl profundo
Em que o Bem faz-se adubo e viça a flor do Mal.

SOM PERDIDO
É filha de um anseio e de um mistério
essa mágoa dorida
que a todos nós invade,
em toda alma deixando sempre uma ferida
e em sangue vivo uma saudade.
O tempo que passou... O temor do futuro...
O amargor do presente,
a vida que se esgota
e continuamente em pleno escuro
essa desconhecida rota
por onde sem querer caminha toda a gente.
A mágoa misteriosa
é som perdido dentro dessa noite fria;
é como que o soluço de uma rosa
no altar de uma capela
de orações, vazias.
Esse perdido som, por essa nave escura
que é a alma da gente,
é lembrança e é olvido, é esperança e amargura
e anda por dentro dela quase surdamente,
ferindo, escortaçando,
vibrando
eternamente.

VIDA DE UM CÉTICO
Há no seu coração um antro escuro
Repleto de bondade e de perfídias;
Ri do passado e zomba do futuro
Com o riso alvar de todas as insídias.
Descrê de Deus, do Bem e da Virtude!
Sentindo indiferença por si mesmo,
Da indiferença fez seu ataúde
E entre sarcasmos vai vivendo a esmo.
Para que com ele o mundo não se zangue,
À falsa dor entoa misereres
E acredita existir um pano em sangue
No sorriso de todas as mulheres.
Quantos, ao vê-Io, julgam-no feliz?
E ele zombando vai de toda a gente,
Pois nunca sente tudo quanto diz
E nada diz de tudo quanto sente.